
A pele da criança é diferente: mais fina, mais sensível, com reações próprias. Por isso o diagnóstico e o tratamento na infância pedem conhecimento específico e medicações adequadas para cada idade.
Atendo desde recém-nascidos, cuidando de manchas de nascença, hemangiomas e da dermatite atópica (o eczema), tão comum nessa fase. A consulta acontece num ritmo acolhedor, que respeita o tempo do seu filho e acolhe as suas dúvidas de pai e mãe.
A dermatite atópica é a doença crônica de pele mais comum na infância. Envolve uma barreira cutânea que não retém água como deveria, somada a uma resposta inflamatória exagerada, e costuma caminhar junto de asma e rinite, na própria criança ou na família.
O que mais pesa no dia a dia não é a lesão, é a coceira: ela tira o sono da criança e da casa inteira, atrapalha o rendimento escolar e alimenta o ciclo de coçar e inflamar mais. Por isso trato o controle do prurido como parte central da conduta, não como detalhe.
O tratamento tem uma base que não muda, com banho adequado e hidratante em quantidade suficiente todos os dias, e uma parte de crise, com anti-inflamatórios tópicos usados na potência e no tempo certos para cada área e idade. Também converso sobre o receio de usar corticoide, que quando bem indicado é seguro, e sobre restrições alimentares, que não devem ser feitas sem indicação clara.
A dermatite da área das fraldas é uma irritação causada pelo contato prolongado com urina e fezes, somado à oclusão e ao atrito. Tipicamente poupa o fundo das dobras, e é justamente isso que ajuda a diferenciar de outras causas.
Quando a vermelhidão atinge o fundo das dobras, tem bordas bem marcadas e pequenas lesões satélite ao redor, o quadro sugere candidíase associada, que precisa de tratamento antifúngico e não apenas de creme de barreira.
A base do manejo é trocar a fralda com frequência, higienizar sem esfregar e manter a barreira protetora. Quando a lesão não melhora no prazo esperado, reavalio, porque psoríase, dermatite seborreica e dermatite de contato a componentes da fralda podem estar por trás.
A pediculose do couro cabeludo é muito frequente em idade escolar e não tem relação com falta de higiene. A transmissão é por contato direto, cabeça com cabeça, e o que confirma o diagnóstico é encontrar o piolho vivo ou a lêndea viável próxima ao couro cabeludo.
A falha de tratamento costuma ter três causas: produto aplicado em quantidade ou tempo insuficientes, ausência da segunda aplicação para atingir os que eclodiram depois, e reinfestação por um contato que segue infestado. A retirada mecânica com pente fino em cabelo úmido complementa a medicação.
Oriento tratar ao mesmo tempo os conviventes que estiverem infestados e evito receitas caseiras, que costumam apenas irritar o couro cabeludo. Também converso sobre o constrangimento que o tema gera, que é o que mais atrasa o tratamento na prática.
As micoses são comuns na infância, e a tinha do couro cabeludo (tinea capitis) é a que exige mais atenção: aparece como área de descamação com falha de cabelo e fios quebrados, às vezes com gânglio no pescoço.
Essa forma não se resolve com creme. Precisa de antifúngico por via oral durante semanas, com escolha da medicação conforme o agente e a idade, porque o fungo está dentro do fio. Tratar apenas por fora atrasa a cura e pode levar à forma inflamatória (quérion), que é a que deixa área de calvície permanente.
Também avalio a fonte de contágio, que pode ser outra criança ou um animal de estimação, e oriento sobre objetos de uso pessoal, para interromper o ciclo dentro de casa.
O molusco contagioso é uma infecção viral muito comum na infância, com pequenas pápulas de superfície lisa e brilhante e uma depressão central característica. Espalha pelo próprio corpo da criança pelo ato de coçar e entre crianças pelo contato direto.
É uma condição autolimitada, que tende a desaparecer sozinha, mas esse processo pode levar meses ou anos. A decisão de tratar leva em conta o número e a localização das lesões, o incômodo, o eczema ao redor e a convivência escolar.
Quando indicado, o tratamento em consultório é feito de forma rápida e com atenção à dor e ao medo da criança, porque uma experiência ruim compromete as sessões seguintes. Em crianças com dermatite atópica o quadro tende a ser mais extenso, e controlar o eczema faz parte do tratamento do molusco.
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